Aconteceu-lhe ouvir hoje palavras que a emocionaram, que a puseram a pensar, que a reconduziram à verdadeira dimensão do quotidiano de cada um - e tudo por causa de nozes, imagine-se. Eis então o que se passou: tratada uma burocracia com um dedo de conversa, regressava a Miss ao carro quando, da luz de uma montra antiga lá no centro da cidade, lhe saltaram à vista umas nozes bonitas. Bonitas, mas mesmo bonitas. E chamativas, as nozes.
Habituada a recentes dissabores com nozes empacotadas que já ditaram bolachudo desperdício, deu a Miss meia volta e entrou na lojinha, espécie de pequena frutaria com ares de antanho, servida por cabelos brancos em cara cansada que, de entre os tomates e os frutos secos, sorriram à Miss desta maneira: «Muito boa tarde, minha querida senhora!»
Ficou desarmada, a Bolachuda. Deixam-na sempre a balançar o inesperado som de um pássaro, uma voz que lhe soa conhecida, um cheiro que a faz evocar um momento quase eterno do passado, uma chuvada na cara quando não precisa de compostura porque está a caminho de nenhures. Pormenores, digamos. E ali, elétrica luz sobre as nozes, a Miss a ser uma «querida senhora» para alguém que lhe garantiu que os frutos eram bons, que os podia levar «à confiança» e que - pasme-se com a sabedoria que a experiência dos dias traz - «as broas dos Santos vão-lhe sair muito bem, mas não se esqueça de lhes pôr limão». Minha querida senhora...
A Bolachuda pediu meio quilo de nozes. Cem gramas depois, a conta não dava certa e, enquanto a Miss procurava na carteira as moedas dos números pequenos, caíram no saco três ou quatro nozes que, certeiramente, compuseram o preço. «Pode ser assim, minha querida senhora?» Pôde ser, com certeza; esta tendência para o número redondo é tanto maior quanto os cêntimos fazem diferença às contas do dia a dia, meditou a Bolachuda, substituindo as moedas pequenas. Então, já prestes a agarrar no saco, eis que as mãos da Miss foram interrompidas pela generosidade da velhice, ao som das nozes que escorregavam para o saco: «Tome lá mais estas, minha querida senhora! Sou eu que lhas ofereço.»
Ainda não sabe bem porquê, mas emocionaram-se, os olhos da Bolachuda. Talvez tenha visto uma nesga do futuro, talvez tenha tocado uma ponta do passado, mas não é bem isso que interessa. Foi o momento, aquele momento em que, vindos do nada e sem que algo o faça prever, tocamos a vida de outra pessoa. Foi aquela emoção indizível (e talvez seja esta a verdadeira razão de não poder escrevê-la tantas vezes) de sermos «minha querida senhora» numa tarde quente de fim de outubro. E tudo por causa de boas nozes destinadas a bolachas. "Bem haja, minha querida senhora", pensou a Bolachuda."Derrotou-me a tristeza e fez-me ganhar o dia".
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