01/02/2015

2015: DAS IDEIAS QUE HÁ NUM NÚMERO

      Vem refletindo a Bolachuda que, de entre as coisas que a deixam mais ou menos estupefacta (que boquiaberta seria deselegante), está a evidência de que, segundo o calendário, nos encontramos em 2015 - e até já decorreu um mês. Analisemos o caso.

    Olhando para os números do ano, a Miss até se sente espacial, que é como quem diz envolta naquele ambiente galático que uma série da sua quase-infância proporcionava. Ora aqui está o problema: objetivamente (ou seja: falemos de números), isso foi há muito, muito tempo -  há tanto que, mais do que galática, a Bolachuda tende a sentir-se dinossáurica, o que lhe parece incomensuravelmente mais verdadeiro: tem grandes dimensões, uma tendência crescente para a colisão por crescente falta de agilidade para o desvio quando móveis e afins vêm na sua direção e, acima de tudo, uma vontade desgraçada de entrar em extinção quando, por artes de tempos misturados, vê espécies que não reconhece. Hesita ela entre opressão e depressão, mas sem grande ganho de causa, que da pressão não se livra e nunca ninguém lhe disse que isto de viver pode ser fácil.

     Por outro lado, decidiu a Miss em 2014 que, no ano seguinte, poderia estabelecer umas diferenças para "fazer acontecer"na sua vida, que é o que dizem agora os recém-graduados em coaching, porta sim, porta também. E o que é que ela fez acontecer? perguntar-lhe-ão. Ora essa: foi ao Porto. Exatamente: foi ao Porto, de viagem marcada com imensa antecedência, para ter a certeza de que não falharia o workshop, que é como quem diz oficina, mas sem escape de automóvel. 

    Há que dizer que a Bolachuda não cumpriu integralmente os seus planos na Invicta. Não conseguiu, por exemplo, provar as tapas dominicais neste lugar, e andava a segui-las há tanto tempo... Que azar. Lá voltará. Mas conseguiu integrar um grupo muito simpático, reunido em torno da Escrita de Viagens, a partir da experiência do Filipe Morato Gomes. O que escrever e o que não escrever, durante dois dias (houve mais um, mas a Bolachuda não pôde ir), num espaço muito simpático na Rua das Carmelitas, ali mesmo ao lado da Livraria Lello. Um luxo ao frio de um fim de semana.

     Escusado será falar da necessidade imperiosa que a Miss sentiu de, conforme mandam salutares regras, ser portuense no Porto e, por conseguinte, afiambrar uma bela francesinha no Café Aviz. Porém, um arquear súbito de sobrancelhas da gentil funcionária dissuadiu a Bolachuda da decisão sábia de se hidratar. Nem ousou discutir, que gostar de bolachas e ser abstémio é coisa difícil com repastos fortes, portanto a cedência foi para o coca-coliano soluço que a pôs logo a todo o gás. Tinha razão, a garçonette.

    Contas feitas, resultou do workshop um certo texto sobre o Porto que talvez - talvez! - a Miss publique um dia destes, porque não foi bem ela quem o escreveu. Compreendamo-nos: foi outra parte dela, a que deixou as bolachas em casa e se fez ao caminho, sentido norte, sempre em busca de coisas boas. Aconteceu isto em janeiro, já ido. «Navegar é preciso», dizia o poeta. «Foi quase, quase isso, com o Douro ali à vista», remata a Bolachuda, em pensamento. Venham mais cinco.