29/12/2015

DO QUE O TEMPO SIGNIFICA

      Chegar ao fim do ano foi coisa rápida, de acordo com o calendário, e algumas vezes arrastada, se a medida for o coração: isto conclui a Bolachuda, envolta no fumo doce do chá de menta, a sonhar com paisagens longínquas onde não cabem bolachas.
      A verdade é que dos votos, intenções e planos habituais, plasmados em palavras cujo padrão não varia muito apesar do design cada vez mais apurado, foi a  Bolachuda deslizando (aceitável eufemismo de época para tropeção) pelo ano fora, por quase trezentos e sessenta e tais dias que algumas realidades lhe deram e nem todas em forma de presente: muitas dúvidas, alguma estupefacção e até frequentes fúrias de retirar as mãos da massa e de cruzar os braços logo a seguir, em recusa descarada: não faço mais nada, não faço mais nada
     Isto foi o que aconteceu, de facto. Mas, por desígnios pouco claros, não foi SÓ o que aconteceu, porque houve tudo isto, mais do que isto e a reacção possível a isto, sob forma de muitas horas na cozinha, imensas bolachas, diferentes sabores, mais encomendas, fios de palavras simpáticas... mas também experiências inenarráveis e resultados longe do maravilhoso, de partir a loiça toda (isto não se passou realmente, é breve nota de ficção ajustada pela escrita a um mundo escaqueirado).
     Ora sabe o bom senso, porém, que ninguém é bom juiz em causa própria, e por esse motivo abstém-se a Bolachuda de divagar muito mais sobre a luz (ou a falta dela) que encontrou no percurso, já para não falar das pedras que, de tão existentes no meio do caminho, chegam a motivar poemas - a criatividade, está mais do que provado, é um poderoso elixir para maleitas de derrota, daí haver poetas que vêem pedras e haver outros que as guardam para os castelos de amanhã. Coragem acima de tudo.
     E é então assim que, chegado o fim de 2015, quase terminada mais uma volta ao Sol em dias que têm sido de chuva e ventos fortes, se prepara a Miss para "rever o futuro", que o paradoxo é a sua casa: considerar de onde veio, a que lugar já chegou e qual será o ponto de inflexão necessário para que a oportuna paz de espírito acompanhe o calor do forno às horas tardias de habitualmente. Pensa ela que com jeito, talvez sorte e algum tempo, é possível que descubra. Até lá, que 2016 seja um ano de ||coisas boas|| - é o que, deste Dezembro que acaba, se pode atirar para a frente. 

Nota: Só porque sim, apeteceu hoje à Bolachuda escrever como aprendeu na escola primária e pela vida fora até chegar um Acordo que, de tão suposto, acordou ainda muito pouco. Fica para memória ortográfica futura, portanto.




12/09/2015

DAS BOLACHAS NO ESTIO

     Retirando estas palavras das verdades profundas da vida, dirá a Bolachuda que não lhe tem apetecido prosar, apesar de inúmeras peripécias que poderia aproveitar, se fosse dada a fait-divers. Enfim, estragou-se o forno, estragou-se a paciência, misturaram-se trabalhos improváveis que pariram noites mal dormidas e maus humores quase militantes... adiante: não foi fácil, este estio com temperaturas que incomodam qualquer Miss pelo menos tão Bolachuda como esta e tão grande velocidade na corrida que é quase outono outra vez.
     Mas tudo se recompõe, a natureza segue o seu curso e eis que ágeis mãos humanas tocaram o forno, que voltou a tilintar ao fim do tempo necessário para fazer sair o que é preciso. Ainda assim, algumas ilações foi possível tirar, e partilha-as a Bolachuda para evitar maiores males.
    Definitivamente, não há que estar na cozinha com pensamentos alhures, porque sai tudo torto. Garante a Bolachuda que o estrago é tremendo quando se amassa em revolta: é bem possível que a farinha seja esquecida - e nunca é bem a mesma coisa! - ou falte um ovo ou outro para abrandar a fúria com que se dá a volta à tigela. Não resulta. Cozinha é espaço de entrega, de dádiva, de coração. Nada pode ser demasiado grave quando se quer fazer coisas boas.
     Por isso mesmo, aflições grandes sanadas, recomeça a Miss a antecipar o prazer da lareira, o frio dos fins de tarde, as cores bonitas das folhas antes da nudez do inverno, as castanhas, os frutos secos, as ventanias na cara, as chuvadas no cabelo, a noite fechada quando ainda são sete horas e... bolachas e outras coisas boas, como habitualmente.
      Os tempos têm sido de leituras investigativas e experiências mais ou menos corajosas, portanto é previsível um inverno fecundo neste hemisfério. Para começar, saem as BOLACHAS DO CORAÇÃO. Para quem ama, pois claro -  elas andam aí.

BOLACHAS DO CORAÇÃO, setembro 2015: aveia, chocolate & avelãs

05/08/2015

DO QUE NÃO É PRECISO COMENTAR

    Após um breve interregno em que as maleitas do forno levantaram questões à Bolachuda, eis que os dias escorrem, assim devagar, entre cheiros e sabores. Não há como o som do mar (e vem isto incoerentemente a propósito de quase coisa nenhuma) para fechar os olhos, ver por dentro com atenção e concluir das razões de Santo Agostinho, goste-se ou não de confissões. 
     Mas era mesmo só isto - venha a próxima onda.

Viagens de Verão by Miss Bolachuda: Caraíbas Delicia (chocolate branco, arandos & sementes de cânhamo), África Esplendorosa (aveia, chocolate, amêndoas & café), Oceania Longínqua (mel, muesli & frutos secos).

18/07/2015

DAS DECISÕES ESTIVAIS

Por via de algum cansaço que teima em colar-se-lhe às mãos, não apetece à Bolachuda alongar-se em explicações sobre caminhos mais ou menos imperativos. Atrás de uma coisa vem outra, e uma mente dorida é sempre menos disponível para ver o lado positivo do desaire que vem a seguir... e assim sucessivamente. 

Ora, suspiros à parte, quer a Miss ver o copo - a bem dizer, o tabuleiro - meio cheio, e eis então que um forno a caminho da senilidade precoce se transforma em paragem para reflexão. Por agora - e ainda não está prevista a duração do advérbio - não há bolachas e, portanto, cumpre à Bolachuda pôr à vista alternativas capazes de encher as medidas aos hedonistas do costume.

Que o sol nasça para todos neste Verão e que os sabores do presente não façam esquecer as memórias do que o palato registou - é que nunca se sabe quando a oportunidade se oferece.


12/02/2015

ISTO DE SE SER VALENTE... OU VALENTIM

O homem disse bem, com certeza, mas esqueceu um pormenor essencial (como a maioria dos pormenores): boas bolachas também se incluem nas «simple great things», seja em tom british ou de típica vogal lusitana, mais aberta.

E é então por isso que a mensagem se resume ao seguinte: São Valentim que se quer valente pede chocolate negro com gengibre. Para quem se afoita nas sensações, um belo licor de natas on the rocks acompanha às maravilhas; registo moderado, a preparar o ambiente, faz-se com um chá de erva-príncipe a fumegar; escolhendo-se o café, é como o vestido preto, que não compromete ninguém; versão minimalista, só mesmo a trincar bolacha...é música para o paladar. «Haja livre arbítrio», escreveu a Miss, à entrada do forno. Avancemos, pois - sem medos. Estamos quase lá.




01/02/2015

2015: DAS IDEIAS QUE HÁ NUM NÚMERO

      Vem refletindo a Bolachuda que, de entre as coisas que a deixam mais ou menos estupefacta (que boquiaberta seria deselegante), está a evidência de que, segundo o calendário, nos encontramos em 2015 - e até já decorreu um mês. Analisemos o caso.

    Olhando para os números do ano, a Miss até se sente espacial, que é como quem diz envolta naquele ambiente galático que uma série da sua quase-infância proporcionava. Ora aqui está o problema: objetivamente (ou seja: falemos de números), isso foi há muito, muito tempo -  há tanto que, mais do que galática, a Bolachuda tende a sentir-se dinossáurica, o que lhe parece incomensuravelmente mais verdadeiro: tem grandes dimensões, uma tendência crescente para a colisão por crescente falta de agilidade para o desvio quando móveis e afins vêm na sua direção e, acima de tudo, uma vontade desgraçada de entrar em extinção quando, por artes de tempos misturados, vê espécies que não reconhece. Hesita ela entre opressão e depressão, mas sem grande ganho de causa, que da pressão não se livra e nunca ninguém lhe disse que isto de viver pode ser fácil.

     Por outro lado, decidiu a Miss em 2014 que, no ano seguinte, poderia estabelecer umas diferenças para "fazer acontecer"na sua vida, que é o que dizem agora os recém-graduados em coaching, porta sim, porta também. E o que é que ela fez acontecer? perguntar-lhe-ão. Ora essa: foi ao Porto. Exatamente: foi ao Porto, de viagem marcada com imensa antecedência, para ter a certeza de que não falharia o workshop, que é como quem diz oficina, mas sem escape de automóvel. 

    Há que dizer que a Bolachuda não cumpriu integralmente os seus planos na Invicta. Não conseguiu, por exemplo, provar as tapas dominicais neste lugar, e andava a segui-las há tanto tempo... Que azar. Lá voltará. Mas conseguiu integrar um grupo muito simpático, reunido em torno da Escrita de Viagens, a partir da experiência do Filipe Morato Gomes. O que escrever e o que não escrever, durante dois dias (houve mais um, mas a Bolachuda não pôde ir), num espaço muito simpático na Rua das Carmelitas, ali mesmo ao lado da Livraria Lello. Um luxo ao frio de um fim de semana.

     Escusado será falar da necessidade imperiosa que a Miss sentiu de, conforme mandam salutares regras, ser portuense no Porto e, por conseguinte, afiambrar uma bela francesinha no Café Aviz. Porém, um arquear súbito de sobrancelhas da gentil funcionária dissuadiu a Bolachuda da decisão sábia de se hidratar. Nem ousou discutir, que gostar de bolachas e ser abstémio é coisa difícil com repastos fortes, portanto a cedência foi para o coca-coliano soluço que a pôs logo a todo o gás. Tinha razão, a garçonette.

    Contas feitas, resultou do workshop um certo texto sobre o Porto que talvez - talvez! - a Miss publique um dia destes, porque não foi bem ela quem o escreveu. Compreendamo-nos: foi outra parte dela, a que deixou as bolachas em casa e se fez ao caminho, sentido norte, sempre em busca de coisas boas. Aconteceu isto em janeiro, já ido. «Navegar é preciso», dizia o poeta. «Foi quase, quase isso, com o Douro ali à vista», remata a Bolachuda, em pensamento. Venham mais cinco.


30/10/2014

«MUITO OBRIGADA, MINHA QUERIDA SENHORA!»

Há muitos momentos em que a Miss pensa que escrever deveria ser um ato automático, uma forma (quase simultânea ao acontecimento) de registar o próprio acontecimento e, muito mais do que isso, a emoção que o dito imprime nela. Não consegue, pois não - e é assim que a utopia se mantém, desgraçadamente procrastinada entre a falta de tempo e a cadeira que nunca lhe dá assento para essas fantasias. Mas, como em tudo, há exceções, e valham essas à Bolachuda para, muito de vez em quando, pôr o dedo no teclado e debitar pormenores.

Aconteceu-lhe ouvir hoje palavras que a emocionaram, que a puseram a pensar, que a reconduziram à verdadeira dimensão do quotidiano de cada um - e tudo por causa de nozes, imagine-se. Eis então o que se passou: tratada uma burocracia com um dedo de conversa, regressava a Miss ao carro quando, da luz de uma montra antiga lá no centro da cidade, lhe saltaram à vista umas nozes bonitas. Bonitas, mas mesmo bonitas. E chamativas, as nozes.

Habituada a recentes dissabores com nozes empacotadas que já ditaram bolachudo desperdício, deu a Miss meia volta e entrou na lojinha, espécie de pequena frutaria com ares de antanho, servida por cabelos brancos em cara cansada que, de entre os tomates e os frutos secos, sorriram à Miss desta maneira: «Muito boa tarde, minha querida senhora!»

Ficou desarmada, a Bolachuda. Deixam-na sempre a balançar o inesperado som de um pássaro, uma voz que lhe soa conhecida, um cheiro que a faz evocar um momento quase eterno do passado, uma chuvada na cara quando não precisa de compostura porque está a caminho de nenhures. Pormenores, digamos. E ali, elétrica luz sobre as nozes, a Miss a ser uma «querida senhora» para alguém que lhe garantiu que os frutos eram bons, que os podia levar «à confiança» e que - pasme-se com a sabedoria que a experiência dos dias traz - «as broas dos Santos vão-lhe sair muito bem, mas não se esqueça de lhes pôr limão». Minha querida senhora...

A Bolachuda pediu meio quilo de nozes. Cem gramas depois, a conta não dava certa e, enquanto a Miss procurava na carteira as moedas dos números pequenos, caíram no saco três ou quatro nozes que, certeiramente, compuseram o preço. «Pode ser assim, minha querida senhora?» Pôde ser, com certeza; esta tendência para o número redondo é tanto maior quanto os cêntimos fazem diferença às contas do dia a dia, meditou a Bolachuda, substituindo as moedas pequenas. Então, já prestes a agarrar no saco, eis que as mãos da Miss foram interrompidas pela generosidade da velhice, ao som das nozes que escorregavam para o saco: «Tome lá mais estas, minha querida senhora! Sou eu que lhas ofereço.»

Ainda não sabe bem porquê, mas emocionaram-se, os olhos da Bolachuda. Talvez tenha visto uma nesga do futuro, talvez tenha tocado uma ponta do passado, mas não é bem isso que interessa. Foi o momento, aquele momento em que, vindos do nada e sem que algo o faça prever, tocamos a vida de outra pessoa. Foi aquela emoção indizível (e talvez seja esta a verdadeira razão de não poder escrevê-la tantas vezes) de sermos «minha querida senhora» numa tarde quente de fim de outubro. E tudo por causa de boas nozes destinadas a bolachas. "Bem haja, minha querida senhora", pensou a Bolachuda."Derrotou-me a tristeza e fez-me ganhar o dia". 
           

28/09/2014

DOS FIOS QUE É PRECISO (DES)LIGAR

Neste outono em que S. Pedro luta contra o calendário, dá-se a Bolachuda a meditações sobre a real necessidade de tantos fios que se ensarilham: ligação aqui, ligação ali, mais umas que enredam noutras as terceiras ligadas às décimas, e eis que a aflição se instala e o cansaço sobrevém. Está cansada, a Bolachuda, e o seu coach interior, que em versão de fabulário não passa de grilo falante, grita-lhe com ênfase que pare. Com certeza, é um pedido - e, como todos os que lhe falam à consciência, levanta sinais vermelhos de limites intransponíveis. 

É por isso que, dada a "mais vale cortar que enlear", desligou a Miss uns quantos fios, pelo menos durante uns tempos, e resolveu ficar-se prosaicamente por estes lados, apenas de vez em quando, assentando o dedo na escrita ao sabor do leve aroma da bolacha, quando ele falar mais alto. Mais nada. Em volta, a vida acontece-lhe e (espera) os amigos estarão sempre no sítio do costume, que é como quem diz aquele em que os podemos encontrar, mesmo na mais fraterna ausência, quando queremos estar juntos.

18/08/2014

DO TEMPO E DOS AMIGOS (ou DAS ARTES DE TRANSFORMAR UMA EM MUITAS)

Compreendeu de repente a Miss, quiçá por empurrão do estio, que longos meses passaram desde que empunhou a pena (perdão, a tecla, bem menos poética, mas seja a bem da verdade) pela última vez. Isto são preguiças, dores laborais prolongadas, dias que começam e acabam sem que se lhes compreenda o zénite, amarras que humano cria. Enfim: serve para isto o gerúndio. 

Acontecem porém desenraizamentos ocasionais, daqueles que lançam privilegiados além fronteiras, de onde acenam com paisagens berrantes à inveja nacional. Não se conclua daqui que a Bolachuda é despeitada: nada disso. Diverte-se e fica muito, mas mesmo muito grata quando dos périplos mundanos voltam pérolas que se lhe transformam nas mãos em mais, mais, mais... bolachas.

un beau chocolat noir français trazido de Itália pela boa lembrança de uma amiga
Vem então isto a propósito de um magnífico chocolate negro, coisa bem apimentada no aprumo da tablete, trazido por lembrança amiga de terras romanas em forma de bota. Descalçando logo o assunto, deitou-se a Miss à tarefa e eis que interrompe o agosto sabático do forno para dar provas na multiplicação.
 
E já está: chocolate no cheiro, saem leves, ligeiríssimas, totalmente sem glúten e remotamente afrodisíacas - se bem que, nestas coisas, pensa a Miss que não há como acreditar com força -, a caminho de quem as prove. E porque até os sabores são viagens, há um Hemingway conselheiro para quem come bolachas pelo caminho: «Never go on trips with anyone you do not love». E acrescenta a Bolachuda, lá muito com os seus botões: «E escolhe as melhores bolachas, que não sabes como acabas.» Obrigada, S.

20/05/2014

DA CRISE E COISAS AFINS

Deu-se a Miss repentinamente conta de andar remetida ao silêncio no que ao escrever diz respeito. Passa o tempo (bem ou mal), nem sempre a pena flui, e continua assim de oiro a ausência de palavra contra a prata do dito verbo quando, feito voz, serpenteia.

Ora para tudo há momentos e um houve em que a leitura jornalística ocupou farto tempo à Miss - títulos atrozes (nem vale a pena tentar perceber porquê) e textos alucinantemente ligados a essa linha ténue que conduz à depressão ou coisa muito pior. Está tudo mal, ao que parece. É a crise, dizem eles. É a crise, dizemos nós, como quem quer convencer-se de que há imperativos que não são tão categóricos como os fazem. Mas uma coisa leva à outra e foi então por conta disto que a Bolachuda se achou mergulhada na história do homem que fazia bolachas, quiçá antepassado longínquo perdido num tempo em que as portas do forno não se partiam indecentemente como certas que hoje aí andam.

Vivia o tal homem em lugar sem poluição e vasta camada de ozono. Usava uma flor na lapela e dedicava-se (com dedicação absoluta) à confeção e venda das bolachas diversas que a sua imaginação conseguia prever em combinações muito ou pouco fantasiosas de bons ingredientes. Corria-lhe bem o negócio (não consta que pagasse impostos, por isso avancemos), tão bem que conseguiu até pôr um vizinho caixeiro-viajante a apregoar bolachas pelas cercanias, em jeito de publicidade de antanho.

 Acontece, porém, que o tal homem era pai. E o seu rapaz, levado para longe pela mania de estudar cada vez mais a fundo essas coisas de contas e créditos e juros e saídas mais ou menos limpas de contabilidades emaranhadas, voltou um dia a casa, dizem que para passar férias. Aterrorizou-se de imediato com o investimento do pai em ingredientes, lenha, horas de labor e, sobretudo, no caixeiro-viajante: «O que é que o pai anda a fazer?! Não vai à missa, não ouve o padre, não lê pasquins? Anda por aí uma crise impossível, enorme, enorme. O mais certo é ir tudo à falência.»

Certo de que as mãos calejadas e a boa vontade pouco podiam contra a ditadura dos números, o velho pai lá pensou que o filho teria razão, saberia do que falava. E decidiu-se: reduziu as bolachas a três ingredientes, passou a produzir apenas uma variedade, e despediu com mágoa o caixeiro-viajante, argumentando que o público acabaria por se cansar da voz monótona da publicidade.

 Os resultados não se fizeram esperar: quebra quase total nas vendas semana após semana e, passadas não muitas semanas, um prejuízo efetivo. Desalentado, o homem mandou recado ao filho, entretanto regressado às alegrias dos números: «Meu filho, estavas coberto de razão. Também eu estou metido  numa enorme crise.»
       
Chegada ao fim da história, meditou a Bolachuda que, fora a leitura dos jornais (que teima em ir fazendo, valha isso o que valer), pouco daquilo lhe quadrava: nem lenha, nem caixeiro-viajante, nem filhos entregues a amores subversivos pelos números. Por isso - e só mesmo por isso - também se afoitou na decisão: mais ingredientes, mais variedades, mais bolachas, mais alegria. E afigurou-se-lhe (que isto de saber ver ao longe tem as suas vantagens, já dizia o grande Almada) que o Dia Mundial da Criança seria uma oportunidade de estaca para sorrir à tal crise -  muito docemente, claro.  
          

25/03/2014

DAS DÚVIDAS QUE ATÉ UMA BOLACHUDA TEM

Exime-se a Miss, em horas difíceis, ao apelo guloso dos títulos que lhe prometem poder ser ela mais isto e aquilo se fizer a respiração certa, tiver o pensamento exato ou decidir que o equilíbrio metabólico é profundamente mais importante que o equilíbrio mental. Não consegue. Por mais que até queira, lê três páginas e enfastia-se: ele é o destino, são as vibrações, os não sei quê muito desalinhados e toda a energia cósmica contra aquilo que a Bolachuda, teimosamente, pretende levar adiante. 

boas e picantes - gengibre by Miss Bolachuda
Rodando nos calcanhares para alcançar a paisagem, consegue a Miss pensar que talvez algumas bebidas possam ser tão espirituosas como o nome também promete, mas mostram-lhe as evidências à farta que os espíritos que tem encontrado não gozam sobremaneira de etílica elevação. Desiste, pois - ainda não é esta a paragem.

Ora diz uma sábia história que, se não caminha a montanha, caminha o homem para ela ou ainda precisamente ao contrário (e pode bem ser a mulher), que é sempre muito importante abrir-se às possibilidades. E é assim que a Bolachuda, num abraço universal à neura feminina, dá ímpeto ao avental, põe as mãos na massa e arranja aquilo de que precisa: uma bolacha que fale. Uma bolacha que diga precisamente aquilo que qualquer bolacha deve dizer e que, logo em seguida, nem sequer tenha olhos para fechar antes de se entregar ao sacrifício.
Pois muito bem, está feita. Feita e multiplicada, que isto da peregrinação interior não se faz só de uma vez. E, sacudido este grãozito de farinha, a autoestima da Miss já vai (pelo menos) no andar de cima. É assim mesmo.

09/03/2014

DAS BOLACHAS PARA PESSOAS SENSÍVEIS

Arredada das lides da escrita, não deixa a Miss de pensar sobre os inúmeros acontecimentos que enchem os dias de emoções: nascimentos (sim, mais uma menina, e bem assinalada, que a sua mãe foi o primeiro "gosto" da Bolachuda no facebook!...), desencontros, pequenas brigas, atrasos, humores mal calibrados... enfim, há de tudo neste mundo que ainda se espera humano. E, no entanto, os momentos em que os sorrisos se sobrepõem acabam por ser borrachas para sofrimentos pesados. Melhor assim.

Ora a Miss, embrulhada ao quotidiano, nem sempre tem vontade de fixar pensamentos em linhas, mas de vez em quando acontece - como agora. E a propósito de quê? Bolachas, pois claro. Em organizadíssima viagem de estudo a um estabelecimento, surpreendeu-se a Bolachuda com o seu próprio olhar, abertamente especado para as prateleiras de coisas dedicadas a pessoas sensíveis (não no sentido do poema de Sophia, mas realmente sensíveis): ao glúten, ao açúcar, aos sulfitos... e por aí adiante. 

«Comer uma bolacha é muito mais complicado do que parece», meditou a Bolachuda, vaidade inchada de tão filosófica conclusão. «Há alterações que se impõem, se queremos um mundo bolachudisticamente mais justo». Decisão tomada. Eis que, após incursão anterior nos chocolates sem açúcar, um admirável mundo novo surgia aos olhos da Miss, de mãos já nervosas em ânsias de massa.

Esquerda: integrais com um toque de cerveja
* Centro: arroz com frutos secos
 * Direita: panóplia de sementes (sésamo, girassol, chia, papoila, linhaça e abóbora)
Saiu ela do estabelecimento, satisfeita com os seus haveres, e foi depois que, no recesso da sua cozinha, ensaiou maneira de substituir açúcares, diminuir glúten, semear fibras e, finalmente, descobrir a bolacha que pudesse dar às pessoas sensíveis o bom gosto da sensibilidade. 

Arregimentados uns quantos provadores ocasionais, deu-se a Miss por satisfeita, pelo menos durante uns tempos : as constatações unânimes de pouca doçura não obstaram, porém, ao consumo integral da bolacha e até ao pedido de mais uma ou duas... para garantir opiniões. Seja.

Loiça lavada, cabe então à Bolachuda o grato sabor de anunciar duas novas variedades das suas bolachas: "arroz com frutos secos" e "panóplia de sementes". A Miss aproveita também para lembrar que a equipa chocolate branco joga com arandos, bagas goji e sementes de girassol e que a equipa chocolate preto muda de equipamento com mais frequência, o que atesta a sua versatilidade -  «A cada um o seu sabor, mas tudo feito com o mesmo amor», segundo a máxima da já citada tetravó sábia.

 Posto isto, a Miss Bolachuda, numa desajeitada mas eficaz paráfrase do brasileiro Vinicius, faz votos de que o domingo seja bom enquanto dure e (porque de vez em quando é  possível alargar o que agrada) que a semana vindoura seja de realização. E bolachas, se for possível. Bem hajam.

18/02/2014

... ENTRE AS MULHERES (COMO NOUTROS LUGARES POSSÍVEIS)


Andou a Miss ocupadíssima em diligências de espécie vária e, a bem da verdade, relegou para os confins a arte de compor umas frases sobre o bolachudo quotidiano. Mas - lá diz o povo, que às vezes diz bem e outras nem tanto -, "mais vale tarde do que nunca"; portanto, em homenagem a tão grandioso pensamento e antes que o lusco-fusco invada os ingredientes, atira-se a Miss à prosa, sempre com a alma na bolacha.

Parece então acontecer que, por muito que alguns tal queiram, ainda não é desta que o calendário para. Assim sendo, avançam os mortais, uns mais transidos que outros, conforme o corpo se molda às temperaturas, para "março marçagão, em que se come bolacha e se descansa do pão" (aprofundadas pesquisas atribuem esta verdade a uma tetravó da Miss, adequadamente sábia e bolachudíssima).

 Como é evidente, o facto tem as suas consequências: por exemplo, o célebre Dia da Mulher, em março incluído, é uma ocasião historicamente documentada para que os seres humanos (sim, que a Miss dispensa ânsias por causa de quotas!) possam escolher um sabor que lhes quadre e viver um muito bolachudo momento na melhor companhia, que bem pode ser a própria. 

|| versão "Pega & Leva, by Miss Bolachuda ||
 Então, como a imaginação é a mãe do que de melhor existe no mundo, Miss Bolachuda pede uma razão (só uma, mas muito, muito boa!) para que o Dia da Mulher tenha o sabor especial das suas bolachas - valem razões maternas, carinhosas, solidárias, curiosas, espirituais, fraternas, gulosas, arrojadas... e até, desta vez e why not?, egoístas e parentes próximas.

Para que isto aconteça, o percurso é (mais ou menos) o que o poeta ditou: o ser humano quer, a razão sonha-se, a bolacha nasce. Satisfeita, Miss Bolachuda oferecê-la-á, com as suas irmãs de forno, à autoria da razão mais apreciada - e por aqui se verá que, efetivamente, os GOSTO(S) se discutem mesmo! 

Como nota final, é importante dizer que a Miss tem dias de dúvidas, mas o seu voto espera-se sempre de qualidade -como as suas bolachas, pois claro! Haja razões!   

08/02/2014

DA CHUVA DO VENTO DO MEL & TUDO

     Passou a Miss a noite em claro, a ouvir o vento e a chuva, um estendal batendo insistentemente numa varanda vizinha e certo poema de Augusto Gil a bailar-lhe ante os olhos, hora após hora. 

     Rente à manhã, não se conteve. Foi ver: eram bolachas. Mel e muesli, amêndoas e avelãs, estende a mão ("eu não devia"), o sabor estala-lhe na boca e entra a Bolachuda em poética reflexão : "vento não é certamente e a chuva não sabe assim...".

        Bom fim de semana!

|| mel, muesli & frutos secos ||

24/01/2014

SOBRE EXCURSÕES E CHEGADAS AO MUNDO

    Conhece a Miss um certo moço, ladino espigadote de covinhas nas faces, que é grande apreciador de bolachas de amendoim. É uma espécie de nicho: só aquelas. E então o dito, passeando borboletas de ansiedade em véspera de excursão (a bem dizer: visita de estudo!), lá foi dizendo à Bolachuda que era capaz de ter alguma graça apreciar o manuelino dos Jerónimos de estômago aconchegado. "Assim seja", pensou ela, "há dores mais densas em nome da cultura". Foi isto: o rapaz quis, a Miss fez, a obra segue.

     E como das dores também nasce alegria... hoje (enfim, ontem, há pouco tempo...) foi o dia. Vivam as Mães. Vivam as filhas. Vivam os grandes momentos da vida.

Mariana || quinta-feira, 23 de janeiro de 2014 ||

17/01/2014

IMPERATIVO CATEGÓRICO

E como nem só de bolachas vive uma alma, entrega-se a Miss às estantes em busca de outras pérolas. Ora eis que, em véspera cansada de fim de semana, salta «Havia», de Joana Bértholo*. A Bolachuda aprecia...

"Havia um duelo musical entre duas bandas muito aclamadas. No interlúdio musical, o apresentador espirrou em mi menor:
  - Atchim!
  E recebeu uma ovação de pé."

É isto - a vida tem destas coisas. Senta-te ali, Miss Bolachuda, recosta-te bem, não largues o livro, mas... aproxima a lancheira.  Isso mesmo: perfeito.

||café + bolachas de muesli + bolachas de aveia com amendoim + bolacha de aveia e caramelo + sorriso de café||

 *Joana Bértholo,Havia, EditorialCaminho, 2012

16/01/2014

FEVEREIRO BOLACHUDO... e tudo e tudo...



PARA A FRENTE... É FEVEREIRO!

|| bolachas de café ||
Dada a pensamentos profundos, decidiu a Miss que um mês mais curto que os outros tem mesmo de ser sorridente. Por isso, decretou que fevereiro será o tempo das emoções com a surpresa da "bolacha única": apenas uma, oferecida a quem se quer bem. É assim que, com uma coisa boa (aparentemente) pouca, se operam súbitas metamorfoses de humor e se desenraízam sorrisos. E é só imaginar como pequenos-almoços na cama, intervalos de labuta, aquele café com amigos ou um livro ao fim da tarde se tornam, com uma simples bolacha, momentos especiais. Escolha-se a frase certa, para alegria da Bolachuda!


|| bolachas de café | bolachas de limão ||


    

12/01/2014

VIAGEM DE DOMINGO

Hoje foi dia de visitar amigos e, desta vez, a Bolachuda viajou com o gosto especial de saber que a esperava uma barriga enorme, plena de esperança de uma menina que há de nascer por estes dias. 

Foi uma tarde muito fria mas muito, muito boa: bolachas de muesli com amêndoas e avelãs, bolachas de aveia e dois chocolates, chá de frutos vermelhos e conversa, aquela conversa que continua em cada ocasião, como se a amizade fosse feita de retalhos que se unem a cada reencontro.

Na despedida, um abraço barrigudo e a certeza de que, na próxima vez, a bolacha vai saber a novidade...

|| queques de amendoim em chávena de vidro ||






11/01/2014

BOLACHAS & DESCANSO (para não ser sempre "sopas")

Saem bolachas de aveia com dois chocolates para um sábado e um domingo per-fei-tos, chova ou faça sol! Bom fim de semana!

|| coisas boas ||

30/12/2013

A MISS & MAGRITTE

||coisas boas|| feitas por Miss Bolachuda: a) no frasco - bolachas de café & tangerina; b) no pacote: bolachas de aveia e dois chocolates. Ao lado, reproduções de R. Magritte (isto não é um cachimbo).


Variação sobre «L'Homme au chapeau melon» (Magritte, 1964) e um frasco Miss Bolachuda (2013)



29/12/2013

INTENÇÕES PARA O ANO NOVO? HÁ.


TEMPO DE AGRADECER

Isto de ser Natal nem sempre é fácil, portanto a mão complicou-se à Miss quando foi hora de dar a volta à massa. Mas da perfeição do universo não há que falar e os anjos fizeram o seu papel depois de polémico consílio acerca dos méritos da Bolachuda: amparo na navegação e o tempo lá esticou o necessário para pacotes, caixinhas e frascos de bolachas destinados a bons momentos. Conseguimos.

E agora que o novo ano se aproxima, é tempo de a Bolachuda agradecer a tod@s os que apreciaram o seu trabalho, que lhe disseram que estava bem assim ou que seria melhor de outra maneira e desejar que 2014 seja um ano repleto de ocasiões... para (pelo menos) uma bolachinha. Bem hajam!

||coisas boas|| feitas por Miss Bolachuda, 2013





23/12/2013

QUASE NATAL (INVERNO É, COM CERTEZA)

Com este frio... até as bolachas se enfrascam!!!
Frasco de bolachas para gulos@s especiais: feitas com chocolate sem adição de açúcares e frutose.



22/12/2013

SILÊNCIO BOLACHUDO

Remeteu-se a Bolachuda ao silêncio e vem laborando, desde ontem, para encher o tabuleirinho com as cores do Natal e sabores a chocolate, frutos secos, café e gengibre. Já pode vir o chá...

Mas agora... silêncio novamente, que as bolachudas bolachas estão a cresceeeer!

||Coisas boas|| feitas por Miss Bolachuda: pacote pequeno; pacote médio; pacote grande & caixa presente - é muita (e boa!) bolacha...



19/12/2013

"VAI VIR" CAIXAS DE BOLACHÕES

Ora então muito bom dia, ainda que chuvoso, a tod@s @s apreciadores da mística produção da Bolachuda. Os últimos tempos têm sido fatigados, mas perdida não está (ainda) a mão, portanto eis que do forno surgem bolachões...

E são para quem, para quem?!...

Para quem gosta do prazer do café e do chocolate com um toque de amêndoa a dissolver-se na boca, pois claro. 
Aqui estão eles, em bela caixa (quiçá natalícia, que é quando @ gulos@ quiser) de cartão reciclado: cerca de duzentos gramas de bons momentos!

Caixa quadrada de bolachões (+/- 200g): Mokas com chocolate e toque de amêndoa, by Miss Bolachuda

13/12/2013

FIM (DE SEMANA) E INÍCIO (DOS TRABALHOS)

    Entrou a Miss em trabalhos para encher de coisas boas um evento desportivo deste fim de semana, por isso saem muitas e muitas Mokas para companhia de cafés energéticos e chás revigorantes. 

    É que as Mokas da Bolachuda concretizam a união gulosa do café, do chocolate e dos pozinhos de avelã, tudo em modo de comer e de desejar... a bolacha do alheio. (Vá lá, que não é pecado!...)


11/12/2013

SEM (MUITAS) PALAVRAS

       Lá dizia o Álvaro de Campos (mais ou menos isto): cansaço. Íssimo, íssimo. Ainda assim, saem umas bolachinhas para as crianças...
bolachas de chocolate com cobertura