20/05/2014

DA CRISE E COISAS AFINS

Deu-se a Miss repentinamente conta de andar remetida ao silêncio no que ao escrever diz respeito. Passa o tempo (bem ou mal), nem sempre a pena flui, e continua assim de oiro a ausência de palavra contra a prata do dito verbo quando, feito voz, serpenteia.

Ora para tudo há momentos e um houve em que a leitura jornalística ocupou farto tempo à Miss - títulos atrozes (nem vale a pena tentar perceber porquê) e textos alucinantemente ligados a essa linha ténue que conduz à depressão ou coisa muito pior. Está tudo mal, ao que parece. É a crise, dizem eles. É a crise, dizemos nós, como quem quer convencer-se de que há imperativos que não são tão categóricos como os fazem. Mas uma coisa leva à outra e foi então por conta disto que a Bolachuda se achou mergulhada na história do homem que fazia bolachas, quiçá antepassado longínquo perdido num tempo em que as portas do forno não se partiam indecentemente como certas que hoje aí andam.

Vivia o tal homem em lugar sem poluição e vasta camada de ozono. Usava uma flor na lapela e dedicava-se (com dedicação absoluta) à confeção e venda das bolachas diversas que a sua imaginação conseguia prever em combinações muito ou pouco fantasiosas de bons ingredientes. Corria-lhe bem o negócio (não consta que pagasse impostos, por isso avancemos), tão bem que conseguiu até pôr um vizinho caixeiro-viajante a apregoar bolachas pelas cercanias, em jeito de publicidade de antanho.

 Acontece, porém, que o tal homem era pai. E o seu rapaz, levado para longe pela mania de estudar cada vez mais a fundo essas coisas de contas e créditos e juros e saídas mais ou menos limpas de contabilidades emaranhadas, voltou um dia a casa, dizem que para passar férias. Aterrorizou-se de imediato com o investimento do pai em ingredientes, lenha, horas de labor e, sobretudo, no caixeiro-viajante: «O que é que o pai anda a fazer?! Não vai à missa, não ouve o padre, não lê pasquins? Anda por aí uma crise impossível, enorme, enorme. O mais certo é ir tudo à falência.»

Certo de que as mãos calejadas e a boa vontade pouco podiam contra a ditadura dos números, o velho pai lá pensou que o filho teria razão, saberia do que falava. E decidiu-se: reduziu as bolachas a três ingredientes, passou a produzir apenas uma variedade, e despediu com mágoa o caixeiro-viajante, argumentando que o público acabaria por se cansar da voz monótona da publicidade.

 Os resultados não se fizeram esperar: quebra quase total nas vendas semana após semana e, passadas não muitas semanas, um prejuízo efetivo. Desalentado, o homem mandou recado ao filho, entretanto regressado às alegrias dos números: «Meu filho, estavas coberto de razão. Também eu estou metido  numa enorme crise.»
       
Chegada ao fim da história, meditou a Bolachuda que, fora a leitura dos jornais (que teima em ir fazendo, valha isso o que valer), pouco daquilo lhe quadrava: nem lenha, nem caixeiro-viajante, nem filhos entregues a amores subversivos pelos números. Por isso - e só mesmo por isso - também se afoitou na decisão: mais ingredientes, mais variedades, mais bolachas, mais alegria. E afigurou-se-lhe (que isto de saber ver ao longe tem as suas vantagens, já dizia o grande Almada) que o Dia Mundial da Criança seria uma oportunidade de estaca para sorrir à tal crise -  muito docemente, claro.